Zé e o PT

Mesmo no pior momento da história da sigla, Zé de Souza não cogita mudança e diz que é hora de salvar o partido

Mensalão. Petrolão. Lava-Jato. Líderes e quadros históricos condenados e encarcerados na prisão. Escândalos e mais escândalos. Queda brusca de popularidade e ameaça de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Desde que foi fundado, 35 anos atrás, em São Paulo, o Partido dos Trabalhadores vive a pior crise institucional de sua história.

Diferentemente de uma série de antigos companheiros, que trataram de salvar suas carreiras e procuraram outras legendas, Zé de Souza nunca cogitou abandonar o PT, mesmo diante da enorme crise. Para ele, que se uniu ao partido em meados dos anos 1980, quando morava em Mutum, o momento é de arregaçar as mangas e lutar por tudo que foi construído nas últimas três décadas e meia.

“Esses dias eu estive em Inhapim e os amigos vieram me perguntar se eu iria sair do PT. Claro que não! Não é hora de sair, é hora de salvar o PT”, dispara. “É agora que o partido mais precisa da gente, quando está com problemas. Se estivesse bem, não precisaria. Que tem problemas, não tenho dúvidas, mas quem nunca teve problemas?”, pergunta, entre exaltado e indignado.

Zé de Souza_58Para Zé de Souza, os avanços sociais e a diminuição da desigualdade, obtidos principalmente nos dois mandatos do presidente Lula, não podem ser esquecidos. “O PT precisa ser lembrado pelos milhões que foram incluídos, que saíram da linha da miséria, e que passaram a fazer parte da vida do Brasil”, diz ele, que usa a própria trajetória como exemplo. “Estou falando do pessoal pobre, daqueles mesmos que passavam fome comigo lá atrás, porque eu não fui o único que passei fome na roça, e que puderam ter acesso a faculdades, que puderam formar seus filhos”.

Na visão do vereador, não somente o PT, mas toda a estrutura política brasileira carece de mudanças profundas. “O mensalão, por exemplo, não é do PT. Estamos em um sistema que não é o correto. É preciso discutir uma ampla reforma política, que o PT tentou implementar, fizemos uma série de discussões, mas que não foi pra frente e, pelo visto, nem vai tão cedo”, lamenta. E critica os que associam corrupção somente aos políticos. “Infelizmente, é algo que faz parte da cultura do brasileiro. Acusam os políticos, mas saem rindo quando recebem um troco a mais, por engano, de um trocador ou no caixa da padaria”.

Presente no último congresso nacional do PT, realizado em Salvador (BA), no último mês de junho, Zé de Souza viu o primeiro passo para uma mudança de fato no sistema político brasileiro. “No encontro, o PT decidiu que não irá receber mais financiamento privado em suas campanhas. Se os outros vão ou não adotar a medida, é um problema deles, mas o PT não vai mais aceitar. É um começo”.

Presidente do PT de Contagem pela quarta vez, Zé de Souza mantém acesa a mesma chama que carregava no início de sua jornada no partido. “Tem muita gente que continua acreditando, e eu sou um deles. Acredito que o PT é um grande partido e que continuará a fazer grandes mudanças no país. Mas, agora, temos que cortar na própria carne para que esse sonho permaneça vivo”.