Zé de Contagem

Depois de quase passar fome, Zé de Souza deixa o interior e recomeça a vida na Região Metropolitana da capital

Quando fala de sua saída do interior e a decisão de vir para Contagem, Zé de Souza costuma brincar que se tratou de um “sorteio”. Afinal, nada foi planejado. A única certeza é de que precisava deixar o Córrego da Boa Sorte, após cerca de cinco anos vivendo em cidades próximas, Pocrane e Mutum. Era preciso dar um novo rumo para sua vida.

Zé de Souza

Na Boa Sorte, Zé deixou a esposa, grávida, e seus dois primeiros filhos, ainda muito novos, esperando que o marido e pai logo pudesse buscá-los, tão logo se firmasse. Uma vez aqui, seu primeiro ponto de apoio foi com uma tia. “Ela era uma pessoa muito boa, é até hoje, mas quem aguenta alguém na sua casa o tempo todo, comendo às suas custas, naquela dificuldade toda?”, indaga.

Como todo recomeço, a trajetória de Zé de Souza na Região Metropolitana de Belo Horizonte iniciou-se com muita dificuldade. Ele ia para o bairro Pirajá, na região Nordeste da capital, juntar esterco de boi para vender. “Dava para arranjar o mínimo, para comprar um pão”. Até que uma irmã, já residente em Contagem, conseguiu a ajuda necessária para que as coisas começassem a melhorar.

“De tanto pelejar, minha irmã conseguiu um emprego para mim em Contagem: motorista de roleta. Trocador, né. Comecei a trabalhar e, aí sim, passei a ter meus recursos”. Com a venda de um resto de café que ainda tinha em Mutum, Zé de Souza comprou sua casa, no bairro Estrela D’Alva, e pode, enfim, trazer sua família para perto de si. Pouco depois, nascia seu terceiro filho.Zé de Souza

O trabalho como trocador durou quatro anos, de 1990 a 1994. No início do Plano Real, criado pelo ex-presidente Itamar Franco, Zé de Souza deixou o emprego e montou um sacolão. No mesmo período, comprou seu primeiro carro. “Foi a maior doideira da minha vida, comprei em 60 prestações. Era um Palio verdinho”, diverte-se com a lembrança. O sucesso do empreendimento, contudo, ajudou a quitar a dívida.

“O sacolão foi na época da URV (Unidade Real de Valor). Era bom demais, consegui ganhar um bom dinheiro, mesmo com o negócio sendo pequeno. As pessoas chegavam lá e saíam com os braços carregados”. Com o fim da inflação, no entanto, os brasileiros perderam o hábito de fazer compras mensais, o que aumentou as perdas do mercadinho. E obrigou Zé de Souza a uma nova virada em sua vida.

“Eu morava perto do Ceasa e tinha um carro. Passei a levar as pessoas do bairro até o Ceasa cobrando o mesmo valor da passagem de ônibus. A distância era de seis quilômetros, certinho. Deu tanto dinheiro que vendi o carro e comprei uma van, fui até São Paulo buscá-la”. De empresário, Zé passou a perueiro. Financeiramente, o melhor período de sua vida. Um feito, principalmente para alguém que, poucos anos atrás, lutava contra a indigência.

A van não parava, rodava 24 horas por dia. Só ficava sem carregar passageiros nos períodos obrigatórios de manutenção. Zé pilotava o carro durante o dia e um sócio ficava responsável pela parte da noite. “Os bolsos andavam cheios naquela época. Com o dinheiro, no mesmo lugar em que comprei meu primeiro barraco, pude construir uma casa de dez cômodos, onde hoje mora minha ex-esposa. Ficou para ela e meus filhos”, orgulha-se.

Zé de Souza não fez parte do confronto dos perueiros com a Polícia Militar em 2001, na Praça Sete, quando dezenas de pessoas ficaram feridas. “Nem vi, estava lá no Ceasa rodando e ganhando dinheiro”. Após o incidente, porém, a situação ficou delicada, arriscada, até. O transporte de passageiros teve que ser encerrado e substituído pelo transporte escolar.Zé de Souza

Com o estreitamento de seus laços com a política, Zé de Souza deixou de lado o volante, mas não parou de trabalhar. Desta vez, contudo, na vida pública. A verdade é que Zé de Souza sempre esteve ligado ao trabalho. Na infância e juventude, era na lida no campo, nos roçados da Boa Sorte e meio aos cafezais de Mutum. Em Contagem, fez de tudo um pouco. Sempre com muito afinco, muita dedicação e muita honestidade. Sempre com o objetivo de dar melhores condições para sua família.

O destino fez com que as atividades profissionais de Zé de Souza o colocassem em contato direto com a população de Contagem. Quem melhor que um trocador de ônibus, pequeno comerciante e depois perueiro para saber os problemas da cidade e conhecer as mazelas do povo? Por mais de dez anos, Zé de Souza viu de perto o que precisava ser feito para que Contagem crescesse, se desenvolvesse e se tornasse um lugar mais justo e igualitário para seus moradores. Lições valiosas e das quais se lembra todos os dias em sua rotina não apenas na Câmara, mas em todos os seus passos como homem público.