O Homem de Boa Sorte

Inhapim, Pocrane, Mutum. Conheça um pouco da vida de Zé de Souza antes de sua chegada a Contagem

Inhapim. Cidade localizada no Vale do Rio Doce, distante 195 km de Belo Horizonte. Cortada pela BR-116, mais conhecida como “Rio-Bahia”, tem cerca de 25 mil habitantes, de acordo com o Censo 2010. Seu nome, o mesmo de um pássaro nativo da região, vem do tupi e significa “amanhecer”.

casinha

Encravado no distrito rural de Inhapim está o povoado Córrego da Boa Sorte. De tão pequeno, sequer aparece no Google Maps ou em outros sites de busca. É difícil encontrar informações sobre o lugar. Porém, para saber mais sobre o vilarejo, basta perguntar a Zé de Souza. Afinal, foi lá que ele nasceu, cinquenta anos atrás, em dezembro. Coincidentemente, o mesmo dia em que se comemora a fundação de Inhapim, elevada a município em 1938.

Zé de Souza? Não, na Boa Sorte ninguém conhece Zé de Souza. Lá, ele é o “Zé Amelim”. Filho do Zé Amélio, neto do Amélio. Em um lugar em que as novidades custam a chegar, persiste a tradição. Em paragens assim, sobrenome pouco importa. Se conhece as pessoas por serem “filhas do Beltrano”, “netas do Fulano”, “sobrinhas do Sicrano”. E só se conquista a confiança do povo se antes já confiavam em seu pai e seu avô.
Na Boa Sorte, a vida de Zé de Souza se dividia entre a Igreja e a lida na roça. Filho e neto de agricultores, logo cedo pegou no cabo da enxada, trabalhando para si e para os outros. No povoado, eram comuns os mutirões dos roceiros, caracterizados pela divisão da labuta e pela diversão no final do dia, como lembra o compadre Valdir. “Aquele tempo era bom, tinha muita gente e todo mundo trabalhava junto. Um ajudava o outro, juntávamos e fazíamos a roça de um, depois do outro. Era troca de dia, não tinha esse negócio de pagar, não”.

Quem também se recorda com saudade daquela época é outro compadre de Zé de Souza – são tantos! –, Eduardo Florêncio, o Preto. “Todo sábado tinha mutirão. Quarenta companheiros, um dia iam pra um, depois pra outro. Hoje acabou ‘esses trem’ tudo”, lamenta Preto. A recompensa, além da satisfação de servir à comunidade, vinha após terminado o serviço. “Minha mãe fazia uma broa de arroz que, nossa… Ô tempo bão, viu”…
Os antigos companheiros são unânimes no que diz respeito ao temperamento do jovem Zé de Souza. “Quem o conhece de pouco, vê que ele é alegre assim. Sorridente, não vê complicação nas situações”, testemunha o amigo e primo Florentino. Entre um “causo” e outro, Compadre Preto concorda. “A gente era muito pobre, mas era todo mundo alegre. E o Zé era o melhor de nós, era o que capinava mais, que saía na frente dos outros”.

A Vida na Igreja

igreja

Em uma pequena comunidade rural do sertão mineiro, a Igreja é o ponto de encontro da população. Além da prática da fé cristã, ela serve como central de notícias, posto de ajuda, espaço de lazer e comunhão. Foi na Paróquia de São Sebastião de Inhapim, no Córrego da Boa Sorte que Zé de Souza manifestou, pela primeira vez, seu espírito de liderança. Foram suas ações na comunidade católica que alicerçaram o político que ele é hoje.

“A relação com a Igreja era muito forte. Não só para mim, mas para todos que viviam lá naquela época. Eu era muito puro, fazia as coisas com muita paixão”, lembra Zé, que assumiu a secretaria da Conferência da Sociedade São Vicente de Paulo do lugar – movimento conhecido pelo trabalho de assistência a pessoas carentes. O pai, Zé Amelim, era o secretário de fato, mas quem cuidava de tudo era o filho. “Quando tinha que apresentar pra fora, meu pai era o secretário. Mas quando tinha que executar algo, era eu”.

E como executava. Zé de Souza mobilizava a comunidade, organizava encontros, era responsável pelas celebrações. O padre só ia até a paróquia de dois em dois meses, quando muito. “Eu tocava a Igreja mesmo. Tocava até violão. E eu não sei tocar violão!”, afirma Zé, aos risos. “Mas em terra de cego, quem tem um olho é rei, né? Então, aprendi a pegar uns tons e minhas irmãs cantavam. A gente morava bem do lado da Igreja, tínhamos a chave. Tudo passava pela gente”.

A relação profunda de Zé de Souza com o Córrego da Boa Sorte pode ser medida pelo número de compadres e comadres que ele tem no povoado. Somente em um ano, ele amealhou 36 afilhados. “Ninguém nunca teve isso. Eu era convidado para ser padrinho de toda criança que nascia na comunidade, era uma coisa muito forte. Recentemente fui lá e os afilhados estão todos crescidos, com barba na cara. Estou ficando velho mesmo”, diverte-se. Foram, em média, três batismos por mês.

Para Zé de Souza, o período em que esteve à frente da Igreja serviu para mudar a relação das pessoas com a instituição. “Antes o padre vinha, falava e todo mundo obedecia. De repente, as pessoas passaram a se ver como protagonistas dentro da Igreja. Havia uma participação efetiva da comunidade. Isso mexia muito com o povo e foi um dos fatores que me segurou lá dentro”, avalia.

Não fosse a obrigação do celibato, provavelmente Zé de Souza teria seguido a carreira eclesiástica. “Meus pais incentivavam, queriam que eu fosse para o seminário em Caratinga. E eu tive essa vontade, achava bonito, importante. Mas padre não podia casar, né? E eu não abria mão do casamento”.

Casamento e mudança

Mesmo com horas a fio dedicadas ao trabalho, não era fácil encher as panelas naquela época

Mesmo com horas a fio dedicadas ao trabalho, não era fácil encher as panelas naquela época

Com 18 para 19 anos, Zé de Souza se casou. E logo com a catequista da Igreja, Marlene. “Tudo que eu queria era

casar. E casei virgem. Era o que eu acreditava, não podia ser de outra forma”. A esposa era um pouco mais nova, tinha acabado de completar 16 anos. Com o casamento, a liderança na paróquia, ao menos ali na Boa Sorte, se esvaiu. “Tive que encarar outros desafios, cuidar da mulher e dos filhos que iam chegando”.

Para sustentar a família, Zé de Souza teve que se mudar. A primeira parada foi em Pocrane, antigo distrito de Ipanema, que fica a 98 km de Inhapim, onde ficou por apenas nove meses e, pela primeira vez, ouviu falar do PT. De lá foi para Mutum, segundo maior município da Zona da Mata mineira, bem na divisa com o Espírito Santo, mais próximo de Vitória (240 km) que de Belo Horizonte (410 km).

Em Mutum, Zé de Souza talvez tenha passado as maiores dificuldades de sua vida. “Morei lá por quatro anos, fui para plantar café. E quase morri de fome”, recorda. Foi ali, contudo, que o hoje vereador deu seus primeiros passos na política. Na fazenda onde trabalhava, estreitou laços com o resto dos empregados na busca não por melhores condições de vida, mas por subsistência.

cruz e casa

Filiação ao PT

Foi em Mutum que Zé de Souza conheceu o hoje deputado estadual Durval Ângelo, um dos fundadores do PT em Minas Gerais, ligado às Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) da Igreja Católica e do Movimento da Boa Nova (Mobom), iniciado na década de 1960 em Caratinga e que promove cursos sobre estudos bíblicos. Conduzido por Durval Ângelo, que abonou sua ficha de filiação no partido, Zé de Souza passou a ser ativo no Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Mutum e passou a frequentar as primeiras reuniões do PT na cidade.

“Eu era apenas um meeiro de café na divisa com o Espírito Santo, mas a gente se organizava, participava das campanhas. Tudo era feito com muita paixão. Você podia falar mal de Deus, mas não do PT”, conta Zé de Souza. Em um local dominado pelo PMDB, as disputas eram violentas. “Era uma cidade de muito coronelismo, não ficava só na perseguição. Matavam mesmo. Em época de campanha, a coisa era tão velada que o padre, na hora de entregar a hóstia, ao invés de falar ‘corpo de Cristo’, falava ‘vota no PT’. Era o jeito de driblar a direita”.

No começo da década de 1990, Zé de Souza ajudou a eleger o primeiro prefeito do PT da história de Mutum, Ozório Teixeira Filho, o Ozorinho. “Eu já morava em Contagem, mas votava lá. Não abria mão de votar, de eleger o camarada. Era uma questão de honra. Só depois é que transferi meu título para cá”.

Retorno para Boa Sorte

As dificuldades encontradas em Mutum obrigaram Zé de Souza a retornar para a Boa Sorte. “Estava tentando achar um lugar para sobreviver, mas tudo era muito difícil, foi um período de muito sofrimento. Um dia, meu sogro chegou em minha casa e eu não tinha açúcar para servir um café para ele”, conta Zé, emocionado. “Nessas horas, eu me questionava muito, me perguntava até se deveria ter casado. Minha esposa tinha a família dela, vivia bem com os pais, tinham uma terrinha. Eu não tinha onde cair morto”.

Lidar com café não era fácil. Variação do valor dos grãos de um ano para o outro trazia muita insegurança

Lidar com café não era fácil. Variação do valor dos grãos de um ano para o outro trazia muita insegurança

Naquele dia, Zé de Souza se escondeu. Foi para o meio do canavial, com vergonha de olhar para o sogro. Naquele dia, teve a certeza de que era preciso mudar. “Ali não tinha mais espaço para mim. Nem em Mutum, nem em Pocrane, nem na Boa Sorte”. Foi quando um de seus afilhados, Dadá, que morava em Contagem, surgiu com a solução. “Foi ele que sugeriu que eu viesse para cá, disse que me trazia. Eu disse: ‘me leva e me solta lá então, porque qualquer coisa é melhor que isso aqui”.

Apesar das dificuldades, até hoje, 25 anos depois, o povo da Boa Sorte lamenta por Zé de Souza ter deixado o povoado. “Abalou demais a comunidade, ele era um espelho na nossa Igreja. Faz muita falta pra gente”, afirma a comadre Maria, esposa do Preto. “Hoje em dia, nossa comunidade está péssima. Só tem velho na Igreja, não tem gente nova mais. Falta alguém para influenciar. Se o compadre estivesse aqui, esse negócio não estava desse jeito, não”, garante.

Lá se vão 25 anos da chegada de Zé de Souza a Contagem, metade de sua vida. Do tempo vivido no interior, hoje ele prefere lembrar somente das partes boas, dos causos, das histórias engraçadas. Mas sabe – e se orgulha – que cada instante de dificuldade, cada percalço, cada obstáculo que encarou foi responsável pelo homem que ele é hoje.