Entrevista Durval Ângelo

Zé de Souza considera Durval Ângelo não apenas seu padrinho na política, mas um segundo pai. Os dois se conheceram em Mutum no fim da década de 1980 e, de lá para cá, sempre estiveram juntos. Ex-seminarista, ligado ao Movimento da Boa Nova (Mobon) e professor de cursos de estudos bíblicos, Durval é fundador do PT em Minas Gerais. Foi eleito vereador em Contagem em 1988 e 1992 e, desde 1995, ocupa uma vaga na Assembleia Legislativa, onde presidiu a Comissão de Direitos Humanos por 11 anos. Formado em Filosofia, Pedagogia e Teologia e pós-graduado em Educação, Durval é autor de vários livros, com destaque para O voo do tucano (1999) e Fé e Política: fome e sede por justiça (2001). Atualmente, é o líder do governo Fernando Pimentel na ALMG.

Como o senhor conheceu o Zé de Souza?

R: Conheci o Zé de Souza em um momento muito significativo em Mutum, quando lá estavam se fortalecendo as comunidades eclesiais de base. Eu trabalhava em assessorias de pastorais, atuava junto à paróquia e as entidades da igreja para trabalhar a consciência crítica das pessoas. A ideia de um evangelho comprometido com a vida, com a justiça e com a transformação social. Por coincidência, é em Mutum que o PT tem uma das caras mais populares em Minas Gerais. Mas também tive contato com Zé de Souza no Córrego da Boa Sorte, em Inhapim, um lugar muito bonito, onde a família dele trabalhava na catequese. Lá também temos um Partido dos Trabalhadores muito identificado com a agricultura familiar, com os produtores rurais. Por fim, em nosso terceiro momento de encontro, viemos a nos encontrar em Contagem. Era um momento em que tínhamos muitas lutas nos bairros por melhorias como calçamento, transporte, creche, esgoto. Ali foi a consolidação da consciência de Partido dos Trabalhadores do Zé de Souza. Tenho a alegria de acompanhar toda a trajetória de vida dele. Tem um velho ditado mineiro que diz que para conhecer alguém é preciso comer um quilo de sal com a pessoa. Com toda certeza estou próximo de chegar a esse quilo de sal com o Zé de Souza, com seu pai, Zé Amélio, e com toda a sua família. Temos essa convivência fraterna, amigável, onde a questão da política se fortalece mais ainda. Fica sendo um elo mais forte, mais significativo desse segmento.

Como o senhor identificou no Zé de Souza, que já era uma liderança, mas não política, alguém que pudesse contribuir para o PT, que ainda era muito novo não apenas em Minas, mas no cenário nacional?

R: Quando conheci o Zé, ele ainda era adolescente, muito jovem. Primeiro, ele sempre foi uma pessoa com uma capacidade de liderança muito grande, se destacava no meio dos outros. Sem conversar muito, mas uma liderança muito da prática, do agir. Segundo, pela inteligência. Sempre foi alguém com uma inteligência diferenciada. Terceiro, pelo compromisso. Zé de Souza sempre foi alguém que teve compromisso com os mais pobres, que sempre se indignou com as injustiças e sempre lutou, procurando formar, na sua comunidade, organizações que ajudassem a superar essas injustiças. Daí estão plantadas as sementes de uma liderança política. Liderança, inteligência e compromisso com os mais pobres, isso que é a origem do PT, isso que é o significado do Partido dos Trabalhadores. Ele chegou na Câmara Municipal muito amadurecido, daí ser a grande liderança do PT no município de Contagem.

O Zé começou sua trajetória de líder dentro da Igreja. Até brinca que se não fosse sua imensa vontade de se casar, teria seguido a carreira eclesiástica. O PT também teve como um de seus alicerces a ligação com as igrejas, com as pastorais. Como se deu essa ligação?

R: O PT tem três origens básicas: o movimento sindical, um compromisso de classe ao lado dos trabalhadores; as comunidades eclesiais de base, na igreja, daí a opção pelos pobres, por uma política inclusiva; e a terceira origem, que é a do meio intelectual, descrente com algumas propostas comunistas mais conservadoras, que trouxe ao PT um balizamento a favor do socialismo democrático, de que liberdade e democracia podem combinar com pão e terra. Aliás, o Zé veio de uma vertente que eu também vim, que é a igreja. Ele foi meu aluno em cursos de Bíblia, foi catequista. Daí sua sensibilidade e seu compromisso com os pobres. Me lembro que um dos primeiros cursos que dei em Mutum era sobre o Evangelho aplicado à vida do agricultor, o pequeno agricultor e as exigências da boa-nova do Evangelho. Foram os primeiros cursos que eu dei e o Zé de Souza participou. Eu também trabalhava muito com a Teologia da Terra, a visão de que Deus deu terra para todos, daí o apoio à reforma agrária, a movimentos que lutam pela democratização da terra no Brasil. Também ajudávamos a organizar a oposição sindical e sindicatos combativos. Cerca de 30 anos atrás, lá em Mutum, a oposição sindical tomou o Sindicato dos Trabalhadores Rurais das mãos de pelegos e hoje é um dos dez maiores sindicatos de trabalhadores rurais de Minas Gerais, tem seis, sete mil sócios. E o Zé acompanhou todo esse processo. Ele tem uma capacidade muito grande. Ao mesmo tempo, soube interagir com a área sindical e com a reflexão intelectual, e cresceu em função dessa inteligência. Ele circula por essas três origens do PT e consegue reunir votos dessas três camadas. Sem perder suas raízes, se tornou uma liderança universal.

O senhor falou com muita empolgação desse período na sua história e na história da formação do PT em Minas Gerais. Dá saudade?

R: Lógico! Eu tenho mais de 40 anos na luta por direitos humanos a partir das Pastorais Sociais da Igreja. Participei da fundação do PT com 21 anos de idade. Nos momentos de crise, como o partido vive hoje, é a máxima do místico. Se você quiser beber água limpa, tem que remar rio acima. É onde as fontes estão, desde que não haja uma barragem de uma mineradora no meio. Essa origem do PT nos dá muita alegria, não podemos perder esses valores. E o Zé de Souza incorpora esses valores da origem do PT, daí a importância dele como vereador.

Com a vinda do Zé de Souza para Contagem, o senhor o coloca em contato direto com o movimento sindical e começa a crescer dentro do partido. Como foi esse processo?

R: Ele se filia ao PT, eu que abonei a ficha dele. E logo cresce no partido, vem para o diretório e segue se destacando, tendo um vínculo de amizade fraterna comigo. Mas eu só dei o pontapé inicial, o primeiro empurrão. O mérito foi todo dele. O lançamos candidato a vereador, em uma campanha que eu apoiei. Ele não ganhou, mas teve uma bela votação. Quando a Marília [Campos, atualmente deputada estadual pelo PT] ganhou sua primeira eleição, o indiquei para ser secretário de Direitos Humanos. Foi um belo secretário, fez um belo trabalho. Daí para chegar à Câmara foi um pulo. Foi o vereador de esquerda com a maior votação na história de Contagem.

Como foi a escolha do nome dele para presidir o PT em Contagem?

R: A escolha se deu em uma plenária. Eu indiquei o nome dele, mas não foi algo como um coelho tirado da cartola. Não apenas eu o defendi, mas todo o nosso grupo, que se chama “Tribo”, apoiaram o nome dele. Houve um reconhecimento coletivo de seu trabalho, de sua importância.

Agora em 2015, o PT voltou a fazer parte da administração de Contagem, dentro do governo do prefeito Carlin de Moura (PC do B). Como presidente do partido na cidade, qual foi o papel do Zé de Souza nesse processo?

R: Existe algo maior, que é a fidelidade que temos a um partido nacional. O que motivou o Zé a ir para a administração foi o fato de o PC do B ser aliado nacional do PT. Temos que ter esse olhar, já que não temos um partido somente em Contagem, mas em todo o Brasil. O PC do B é um grande aliado do Governo Dilma, tem ajudado muito a presidente. Também tem sido nosso aliado no governo do Estado. O Zé soube fazer essa leitura muito bem.

Todas as vezes em que fala do senhor, o Zé sempre fala com muito carinho e sempre destacou a importância que o senhor teve na trajetória dele, tanto pessoal quanto política. O que essa ligação, quase que de pai para filho, significa para o senhor?

R: Ele inclusive disse isso, quando tomou posse pela última vez como presidente do partido em Contagem, que me considerava o segundo pai dele. Eu não concebo fazer política só com a razão, pensando em interesses próprios. A gente faz política com sentimento. Milton Nascimento canta que “amigo é coisa para se guardar do lado esquerdo do peito, debaixo de sete chaves”. Em uma sociedade em que vemos a perda tão grande de valores, de ideais, acho que o valor da amizade transcende tudo. Aristóteles dizia que quem encontra um amigo encontra um outro eu. Eu tenho por Zé de Souza o maior respeito, a maior consideração. E o maior orgulho por vê-lo como uma grande liderança, um grande cidadão, um grande parlamentar que é, e ser considerado seu pai na política. Fico muito satisfeito com isso. Tenho por ele um carinho muito grande. E ao vê-lo completar 50 anos, a gente vê que ele tem combatido o bom combate, tem mantido a fé, mantido os bons princípios, os ideais. Acredito que hoje, mais do que nunca, a permanência dele na Câmara por mais um mandato, é a certeza de que vou continuar tendo um filho espiritual, um amigo e uma grande pessoa para defender os trabalhadores na Câmara. Para fazer diferença na Câmara Municipal de Contagem. Por isso, tenho orgulho de antecipar para toda Contagem, onde tenho meu título de eleitor, que, pela terceira vez, meu voto para vereador vai ser no Zé de Souza. E faço um convite para todos os meus amigos e amigas: se quiserem um bom vereador, um bom candidato, continuem votando nesse agora cinquentão, mais amadurecido e que, agora, poderá fazer mais e melhor pela cidade.

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